Por que os coelhos giram e andam em círculos ao redor dos seus tutores?
- Dra MV Gisele Stein

- 10 de jul.
- 7 min de leitura
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Por Dra MV Gisele Stein, especializada no atendimento de Pets Não Convencionais
A dança que derrete o coração (mas que esconde segredos)
Imagine a cena: você chega em casa após um longo dia de trabalho, abre a porta do quarto onde seu coelho vive, e lá está ele — aquele ser de orelhas longas e nariz trêmulo — disparando em círculos ao redor dos seus pés como se fosse um pequeno furacão peludo. Você sorri, seu coração derrete, e talvez até filme o momento para postar nas redes sociais. Afinal, é impossível não se sentir amado diante de uma recepção tão entusiástica.
Mas você já parou para pensar no que realmente significa esse comportamento?
Eu ja vi muitos coelhos fazendo isso e posso te afirmar uma coisa: o comportamento de girar em círculos é uma das manifestações comportamentais mais ricas e complexas do coelho doméstico (Oryctolagus cuniculus). Ele pode ser a mais pura expressão de afeto, um ritual de cortejo ancestral, um pedido de atenção — ou, em alguns casos, o primeiro sinal de que algo não vai bem com a saúde do seu animal. Isso mesmo!!!
Neste artigo, vou desvendar cada faceta desse comportamento fascinante, desde a ciência por trás do cortejo até os sinais de alerta que todo tutor de coelho precisa conhecer. Prepare-se para nunca mais olhar para os giros do seu coelho da mesma forma.
Por que você tutor de coelho deve saber disso:
Os coelhos se tornaram um dos pets não convencionais mais populares do mundo. No Brasil, estima-se que a criação de coelhos como animais de companhia cresceu significativamente na última década, e com isso, surgiram dúvidas que antes eram exclusivas de criadores e pesquisadores.
O comportamento de girar em círculos é um tema que merece atenção especial por uma razão fundamental: ele existe no limite entre o normal e o patológico. Um coelho que circunda seus pés com alegria é um animal saudável e socialmente estimulado. Um coelho que gira compulsivamente, sem conseguir parar, com a cabeça inclinada e os olhos tremendo, pode estar enfrentando uma doença neurológica grave.
Saber distinguir entre essas duas situações pode ser a diferença entre um momento de carinho e uma emergência veterinária.
A ciência por trás dos giros: o que a etologia nos ensina
O ritual de cortejo: um comportamento ancestral
Para compreender por que os coelhos giram ao redor de nós, precisamos voltar às raízes evolutivas da espécie. O coelho europeu (Oryctolagus cuniculus), ancestral de todos os coelhos domésticos, é um animal gregário e hierárquico, que vive em grupos sociais complexos com estruturas de dominância bem definidas.
No contexto social do coelho, o comportamento de circundar outro indivíduo — conhecido em etologia como "cortejo" ou "circundar" — é fundamentalmente um comportamento de cortejo sexual. O macho circunda a fêmea em movimentos repetitivos, frequentemente emitindo um som grave e rítmico conhecido como "alerta/buzina" ou grunhido de corte, enquanto exibe uma postura de cauda erguida.
Aqui está o detalhe fascinante: coelhos castrados continuam a apresentar esse comportamento! E não apenas com outros coelhos, mas com seus tutores humanos. Isso acontece porque o comportamento de circundar está tão profundamente enraizado no repertório comportamental da espécie que a castração reduz, mas não elimina completamente, sua expressão. Para o coelho, circular os pés do tutor é uma forma de dizer: "você é meu companheiro, você é parte do meu grupo, eu me conecto com você".
Mais do que amor: a linguagem corporal do afeto
O circundar não acontece isoladamente. Ele faz parte de um repertório comportamental mais amplo que os tutores precisam aprender a ler:
Grunhido de corte: um som grave e rítmico, diferente de qualquer outro som que o coelho faz, diretamente associado à excitação social e ao cortejo
Cauda erguida: sinal visual de excitação e disposição social
Giro acrobático: o famoso salto com torção no ar que representa o auge da felicidade coelhina, frequentemente acompanhado de corridas pela casa (as chamadas "explosões repentinas de energia")
Fricção do queixo: o coelho esfrega o queixo em você ou nos seus pés, marcando você com as glândulas mentais — basicamente dizendo "você é meu"
Quando o coelho combina os giros com esses elementos, estamos diante de uma expressão comportamental multifacetada de afeto, excitação e vínculo social. É, em termos práticos, a forma mais efusiva que um coelho tem de demonstrar que você é importante para ele.
A dimensão cognitiva: o que seu coelho está realmente pensando?
Estudos sobre a cognição social de coelhos domésticos ainda são relativamente escassos quando comparados aos de cães e gatos, mas pesquisas recentes da Universidade de Ghent, na Bélgica, investigaram o comportamento social de coelhos de companhia durante o período de introdução e observaram que os animais utilizam uma série de comportamentos de aproximação — incluindo os giros — como parte de um repertório de "negociação social". Isso sugere que os giros não são apenas instinto cego, mas fazem parte de uma comunicação intencional.
Para o seu coelho, circular seus pés é uma forma ativa de iniciar interação. É o equivalente coelhino de chegar e dizer: "preste atenção em mim, vamos interagir".
Quando o giro não é amor: a face médica do comportamento circular
Aqui chegamos ao ponto que, como veterinário, mais me preocupa. Nem todo giro é inofensivo. Existe uma categoria de comportamento circular que é patológica e que exige atenção veterinária imediata.
Encephalitozoon cuniculi: o parasita silencioso
O Encephalitozoon cuniculi é um microsporídio — um organismo unicelular parasita — que infecta uma proporção significativa da população de coelhos domésticos em todo o mundo. Estudos sorológicos indicam que entre 23% e 52% dos coelhos de estimação apresentam anticorpos contra o parasita, embora nem todos desenvolvam doença clínica.
Quando o E. cuniculi causa doença, o sistema nervoso central é um dos principais alvos. O parasita induz inflamação granulomatosa no encéfalo, particularmente em áreas relacionadas ao sistema vestibular — o sistema que controla o equilíbrio. O resultado? Uma condição conhecida como doença vestibular central, que se manifesta com:
Inclinação de cabeça (torticolo) — a cabeça fica virada para um lado, às vezes em ângulos extremos
Giro compulsivo e involuntário — o coelho gira sem conseguir parar, sempre para o mesmo lado
Nistagmo — movimentos oculares rápidos e involuntários, geralmente horizontais
Ataxia — andar cambaleante, sem coordenação
Rolamento — o coelho cai e rola sobre si mesmo, incapaz de se endireitar
Um estudo retrospectivo de coelhos com doença neurológica revelou que 58,5% dos casos foram diagnosticados como encefalitozoonose. Em outro estudo clínico, aproximadamente 48,8% dos coelhos soropositivos com suspeita de encefalitozoonose e doença vestibular apresentavam giros como sintoma.
A distinção crítica é esta: o giro comportamental é voluntário, intermitente e acompanhado de sinais de excitação (cauda erguida, corridas e saltos). O giro patológico é compulsivo, contínuo, não acompanhado de sinais afetivos e frequentemente associado a inclinação de cabeça e nistagmo.
Otitis interna: a infecção que desequilibra
Outra causa comum de giro patológico é a otite média/interna — infecção bacteriana do ouvido médio e interno que afeta o labirinto vestibular. Em raças padrão (coelhos de maior porte), a bacteria Pasteurella multocida é frequentemente o agente causador, enquanto em raças anãs, o E. cuniculi tende a ser mais prevalente como causa de doença vestibular.
A otite interna produz sintomas muito semelhantes aos da encefalitozoonose — inclinação de cabeça, circling, ataxia e nistagmo — mas o tratamento é completamente diferente, o que torna o diagnóstico veterinário diferencial absolutamente essencial.
Outras causas neurológicas
Embora menos comuns, outras condições podem causar giro patológico em coelhos:
Trauma craniano com lesão vestibular
Neoplasias (tumores) do sistema nervoso central
Toxoplasmose
Listeriose
Deficiências nutricionais, especialmente de vitamina E
Como distinguir o amor da doença: um guia prático
Como tutor, você é a primeira linha de observação. Aqui está um guia para diferenciar as duas situações:
✅ Sinais de giro comportamental (normal e saudável)
O coelho circunda seus pés intermitentemente, parando e retomando
O movimento é rápido e ágil, sem perda de equilíbrio
A cabeça está reta, sem inclinação
Os olhos estão normais, sem movimentos involuntários
O coelho emite sons e mantém a cauda erguida
O comportamento ocorre em contextos de excitação: sua chegada, hora da comida, momento de brincadeira
O coelho interrompe o giro para fazer outras coisas (comer, explorar, receber carinho)
❌ Sinais de giro patológico (procure um veterinário especializado)
O coelho gira compulsivamente, sem conseguir parar
O movimento é sempre para o mesmo lado
Há inclinação de cabeça (mesmo que sutil)
Os olhos apresentam nistagmo (movimento rápido e involuntário)
O coelho demonstra perda de equilíbrio ou ataxia
O comportamento não tem contexto social — não está associado à sua presença ou a momentos de excitação
O coelho parece confuso, desorientado ou apático
Pode haver rolamento — o coelho cai de lado e não consegue se endireitar
⚠️ Atenção: Se o seu coelho apresenta qualquer combinação dos sinais da lista patológica, procure imediatamente um veterinário especializado em animais não convencionais. A doença vestibular em coelhos é uma emergência e o tempo de tratamento é um fator crítico para a recuperação.
Dicas práticas: como lidar com o giro comportamental
Se o seu coelho cirgula como expressão de afeto (o cenário mais comum), aqui estão algumas recomendações para enriquecer essa interação:
1. Reciprocidade no vínculo
Quando seu coelho circunda seus pés, ele está iniciando uma interação social. Responda! Agache-se, ofereça a mão para ele cheirar, faça carinho na cabeça (entre as orelhas, onde eles adoram). Essa reciprocidade fortalece o vínculo e atende a uma necessidade social fundamental da espécie.
2. Enriquecimento ambiental
Coelhos que fazem muito giro podem estar com excesso de energia não gasta. Certifique-se de que seu coelho tem espaço suficiente para correr, túneis para explorar, brinquedos para mastigar e oportunidades de forrageio (buscar comida escondida). Um coelho entretido é um coelho feliz — e menos propenso a comportamentos repetitivos por tédio.
3. Considere a castração
Se o seu coelho não é castrado e o giro é excessivo, persistente ou acompanhado de monta (tentativa de cópula em objetos ou em você), a castração pode reduzir significativamente esses comportamentos hormonais. Além disso, a castração reduz o risco de tumores reprodutivos, especialmente em fêmeas, onde a incidência de adenocarcinoma uterino pode chegar a 60-80% em fêmeas não castradas acima de 4 anos.
4. Observe o padrão
Cada coelho tem um padrão individual de comportamento. Aprenda o que é normal para o seu. Se o padrão muda — se o circling aumenta drasticamente, se torna compulsivo ou se acompanha outros sinais — isso é um sinal de alerta que merece avaliação veterinária.
5. Não incentive o comportamento se for excessivo
Embora o giro seja adorável, se ele se torna excessivamente repetitivo (o coelho gira por longos períodos sem parar, mesmo sem sinais patológicos), pode ser um sinal de estereotipia — um comportamento repetitivo associado a estresse ou subestimulação ambiental. Nesse caso, o foco deve ser enriquecer o ambiente e não reforçar o comportamento com atenção.
Gostou desse artigo? E ai o seu coelho gosta de girar ao redor de você?
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Beijos e até a próxima.
Dra Gi




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