Sua ave pode te transmitir alguma doença?
- Dra MV Gisele Stein

- 19 de dez. de 2025
- 5 min de leitura

Por Dra Gisele Stein, médica veterinária especializada em medicina de pets não convencionais
Imagine a cena: sua calopsita, sempre tão falante e ativa, hoje está quieta no canto da gaiola. As penas parecem um pouco eriçadas, e ela espirrou algumas vezes. Você pensa: "deve ser só um resfriado, logo passa". Mas e se eu te dissesse que por trás desses sinais sutis pode se esconder uma das doenças mais sérias e traiçoeiras para as aves (em especial os psitacídeos) e que também pode afetar a sua saúde e a de sua família?
Em minha jornada, tanto na clínica quanto na universidade, aprendi que a informação é a ferramenta mais poderosa que um tutor pode ter. Hoje, vamos falar sobre a clamidiose , também conhecida como psitacose ou febre dos papagaios. Uma doença que merece todo o nosso respeito e atenção, não apenas pelo bem-estar de nossas aves, mas pela segurança de nosso lar.
Por que a Clamidiose é um Assunto de Família?
Você pode estar se perguntando: "Com tantas doenças, por que dar tanto destaque a essa?". A resposta é simples e direta: a clamidiose é uma zoonose. Esse termo, que talvez soe técnico, significa que é uma doença que pode ser transmitida dos animais para os seres humanos.
Sim, a mesma bactéria que deixa sua ave doente pode infectar você, seus filhos ou qualquer pessoa que conviva no mesmo ambiente. Nos humanos, a infecção pode variar de um quadro semelhante a uma gripe forte – com febre, dor de cabeça e calafrios – a uma pneumonia atípica grave, que pode exigir hospitalização.
Portanto, entender a clamidiose não é apenas um ato de amor pela sua ave; é uma medida de saúde pública e responsabilidade familiar. Ignorar seus riscos é como ter uma bomba-relógio silenciosa em casa, e meu objetivo aqui é ajudar você a desarmá-la com conhecimento.
Quem é a Chlamydia psittaci?
Vamos deixar a linguagem um pouco mais técnica, mas prometo que será de forma clara. A clamidiose é causada por uma bactéria muito peculiar chamada Chlamydia psittaci. O que a torna tão especial e perigosa?
Diferente da maioria das bactérias, a C. psittaci é um parasita intracelular obrigatório. Isso significa que ela não consegue sobreviver por muito tempo sozinha no ambiente; ela precisa invadir as células do hospedeiro (sua ave, ou você) para se replicar. Uma vez dentro da célula, ela se "esconde" do sistema imunológico, o que a torna uma mestre do disfarce e dificulta a ação de muitos antibióticos.
Como acontece a transmissão?
A principal via de contágio é a inalação. Uma ave infectada, mesmo que não aparente estar doente, elimina a bactéria em suas secreções respiratórias, fezes e até na poeira das penas. Essas partículas ressecam, se transformam em um pó fino e ficam suspensas no ar que todos no ambiente respiram. Ao limpar a gaiola, o simples ato de sacudir o forro pode espalhar um aerossol contaminado.
Lembro-me de "Chico", um Papagaio-verdadeiro que chegou ao meu consultório com uma leve secreção nasal. O tutor acreditava ser uma alergia. No entanto, sua esposa estava há duas semanas com uma "gripe que não curava". A investigação diagnóstica confirmou: Chico era portador de clamidiose e, infelizmente, havia transmitido para a tutora. O tratamento de ambos foi um sucesso, mas o susto serviu de alerta para toda a família sobre a importância da higiene e do check-up veterinário.
Os Sinais Clínicos na sua Ave: Fique Atento!
A clamidiose é conhecida como a "grande imitadora", pois seus sintomas podem ser vagos e confundidos com dezenas de outras doenças. Os sinais mais comuns em psitacídeos incluem:
Sinais Gerais: Apatia, sonolência, penas eriçadas, perda de apetite e emagrecimento.
Sinais Respiratórios: Espirros, secreção nasal e ocular, e dificuldade para respirar (respiração ofegante).
Sinais Digestórios: Diarreia ou fezes com coloração alterada, classicamente descritas como um verde-limão ou verde-abacate (biliverdinúria).
Sinais Oculares: Conjuntivite (olhos vermelhos, inchados e lacrimejantes).
O maior perigo é que muitas aves são portadoras assintomáticas. Elas carregam a bactéria, a eliminam no ambiente e podem contagiar outras aves e pessoas, mas não demonstram nenhum sinal clínico. Fatores de estresse – como uma mudança de ambiente, a chegada de um novo animal, uma nutrição inadequada ou outra doença – podem fazer com que a infecção latente se manifeste de forma aguda e grave.
Dicas Práticas: Blindando sua Casa e sua Ave Contra a Clamidiose
Agora que entendemos o perigo, vamos à parte prática. A prevenção é, sem dúvida, o melhor remédio.
Quarentena é Inegociável: NUNCA introduza uma nova ave diretamente no ambiente das outras. A nova ave deve ficar em um cômodo separado por, no mínimo, 30 a 45 dias. Durante esse período, observe-a atentamente e, idealmente, leve-a a um veterinário especializado para um check-up e exames, que podem incluir o teste para clamidiose.
A Higiene é sua Maior Aliada:
Limpeza Diária: Remova fezes e restos de alimentos da gaiola todos os dias.
Use Borrifador: Antes de limpar o fundo da gaiola, borrife água com um desinfetante apropriado (consulte seu veterinário) sobre o substrato. Isso evita que a poeira contaminada suba para o ar.
Desinfecção Semanal: Lave a gaiola, poleiros e brinquedos com produtos seguros para aves. O amônio quaternário é um excelente desinfetante contra a Chlamydia, mas siga as instruções de diluição e enxágue bem.
Check-ups Veterinários Regulares: Leve sua ave para uma consulta com um veterinário especializado em animais silvestres pelo menos uma vez ao ano, mesmo que ela pareça saudável. O diagnóstico precoce pode ser feito por meio de exames de sangue ou coleta de material das fezes e da cloaca.
Atenção à Origem: Adquira suas aves apenas de criadores comerciais legalizados e responsáveis ou de estabelecimentos que testam seus animais. Evite feiras e criadores de "fundo de quintal", pois o risco de adquirir aves doentes é imensamente maior. JAMAIS adquira animais oriundos do tráfico, pois aves silvestres normalmente são portadoras da clamidia!
Fortaleça a Imunidade: Uma dieta balanceada (rações extrusadas de qualidade, vegetais e frutas permitidas), um ambiente sem estresse e enriquecimento ambiental (brinquedos, desafios) ajudam a manter o sistema imunológico da sua ave forte e mais resistente a infecções.
O mundo dos pets é cheio de "sabedoria popular" que nem sempre é verdadeira. Vamos esclarecer alguns pontos sobre a clamidiose:
Mito:"Minha ave nasceu em cativeiro, então não tem como ela ter essa doença."
A transmissão pode ocorrer da mãe para o filhote, no próprio criadouro ou em qualquer ponto de contato com outras aves ou ambientes contaminados. A origem em cativeiro não é uma garantia de saúde.
Mito: "Se a ave tem clamidiose, ela precisa ser sacrificada."
Absolutamente não! A clamidiose tem tratamento. O protocolo geralmente envolve um longo curso de antibióticos (normalmente a doxiciclina), que pode durar 45 dias ou mais. O tratamento é eficaz quando seguido à risca sob orientação veterinária.
Mito:"Só papagaios e araras transmitem a doença."
Embora o nome "psitacose" remeta aos psitacídeos, mais de 460 espécies de aves, incluindo pombos, canários e até aves de produção como perus e patos, podem ser portadoras da Chlamydia psittaci. Qualquer ave é um hospedeiro em potencial.
Chegamos ao final da nossa conversa, e espero que você se sinta mais preparado e confiante para cuidar da sua companheira de penas. A clamidiose pode parecer assustadora, e de fato, seus riscos não devem ser subestimados. Contudo, o conhecimento transforma o medo em ação preventiva.
Você aprendeu que a higiene cuidadosa, a quarentena, as visitas anuais ao veterinário e a atenção aos sinais sutis são as chaves para proteger tanto sua ave quanto sua família. Lembre-se: o amor que você dedica ao seu pet se manifesta na qualidade do cuidado que você oferece.
A saúde da sua ave e a segurança da sua família não podem esperar.
Sua ave já passou por um check-up este ano? Você já conversou com um veterinário sobre os riscos da clamidiose?
Não adie essa conversa crucial. Procure hoje mesmo um médico veterinário especializado em animais silvestres. Pergunte sobre os testes de diagnóstico e estabeleça um plano de saúde preventiva. Essa é a maior prova de amor que você pode dar.
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