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Esporotricose Felina: A Doença da Rosa que se Tornou um Alerta de Saúde Pública

  • Foto do escritor: Dra MV Gisele Stein
    Dra MV Gisele Stein
  • 10 de out.
  • 7 min de leitura
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Por Dra MV Gisele Stein, mestre e doutora em patologia clínica veterinária.


Imagine a cena: você está acariciando seu gato, sentindo o ronronar vibrar em seu colo, quando seus dedos encontram um pequeno nódulo, uma "verruguinha" que não estava ali antes. Muitos tutores, na melhor das intenções, pensam: "Deve ter sido uma briga, vai sarar". Mas e se essa pequena lesão for a ponta de um iceberg, o primeiro sinal de uma doença fúngica grave, sorrateira e que pode passar do seu gato para você e sua família?

Hoje, quero conversar com você sobre um tema que deixou de ser raro e se tornou uma emergência de saúde pública em muitas regiões do Brasil: a esporotricose.

Este não é um artigo para causar pânico, mas para armar você com a ferramenta mais poderosa que existe: o conhecimento.

Vou desvendar o que é a esporotricose, por que seu gato é uma vítima (e não um vilão) e o que você pode fazer para proteger toda a sua família, de duas e quatro patas.


Por Que a Esporotricose Merece Sua Atenção Máxima?


Antigamente conhecida como a "doença do jardineiro" ou "doença da roseira", a esporotricose era classicamente contraída por humanos ao se arranharem em espinhos de plantas contaminadas com o fungo Sporothrix schenckii. Era uma nota de rodapé nos livros de dermatologia.

Hoje, o cenário mudou drasticamente, especialmente no Brasil. Uma nova espécie do fungo, o Sporothrix brasiliensis, adaptou-se de forma assustadoramente eficiente para ser transmitida entre gatos. Isso transformou a doença em uma zoonose epidêmica: uma doença que passa de animais para humanos e que se espalha rapidamente.


A importância de entender a esporotricose reside em três pilares:


  1. É grave para os gatos: Diferente dos cães e até dos humanos, os gatos desenvolvem formas muito mais severas da doença, com uma carga fúngica altíssima em suas lesões. Sem tratamento, a doença progride, causa sofrimento intenso e pode ser fatal.


  2. É um risco para os humanos (zoonose): A principal forma de contágio humano hoje é através de arranhões, mordidas ou contato da pele com secreções de lesões de um gato doente. Crianças, idosos e pessoas com o sistema imunológico comprometido (imunossuprimidos) são especialmente vulneráveis.


  3. O gato é uma vítima: É fundamental quebrar o estigma. O gato não é um "vilão" que transmite a doença por maldade. Ele é um hospedeiro tão vítima quanto nós, que adoece e sofre. O abandono de gatos com suspeita da doença, além de ser um ato de crueldade, é um crime e um grave erro de saúde pública, pois o animal doente e sem tratamento continuará a espalhar o fungo no ambiente e para outros animais.


Desvendando o Sporothrix (o fungo)


Vamos traduzir o "veterinarês". A esporotricose é uma micose subcutânea (e por vezes sistêmica) causada por um complexo de fungos do gênero Sporothrix. Pense neles como primos, sendo o S. brasiliensis o mais agressivo e responsável pela maioria dos casos transmitidos por gatos no Brasil.

Como acontece a infecção?

O fungo vive no ambiente, em solo e matéria orgânica em decomposição. Um gato, ao brigar com outro gato infectado ou ao ter contato com um ambiente contaminado (especialmente através de um machucado na pele), pode se infectar. Os gatos machos, não castrados e com acesso à rua são as maiores vítimas, pois seu comportamento territorialista envolve mais disputas e, consequentemente, mais arranhões.

Uma vez no organismo do gato, o fungo começa a se multiplicar. Os sinais clássicos são:

  • Forma Cutânea Linfática: É a mais comum. Começa com um ou mais nódulos (caroços) pequenos e firmes na pele, geralmente na cabeça, focinho, orelhas e patas – áreas comuns de arranhões em brigas. Esses nódulos podem se transformar em feridas que não cicatrizam, liberando uma secreção sanguinolenta ou purulenta. Caracteristicamente, novas lesões aparecem seguindo o trajeto dos vasos linfáticos, como um "cordão" de feridas.

  • Forma Cutânea Fixa: As lesões ficam restritas a uma única área do corpo, sem se espalhar pelo sistema linfático.

  • Forma Disseminada: Esta é a forma mais grave e, infelizmente, comum em felinos. O fungo se espalha pela corrente sanguínea e atinge órgãos internos, ossos, articulações e até o sistema nervoso central. O gato fica apático, perde peso, pode apresentar dificuldade respiratória (espirros constantes com secreção sanguinolenta são um sinal de alerta!) e dor ao se movimentar.


Como nós Veterinários Fechamos o Diagnóstico?

O diagnóstico nunca deve ser baseado apenas no "achismo". Na minha prática clínica, a suspeita surge com a história e as lesões, mas a confirmação vem com exames:

  1. Citologia: É o primeiro passo. Com uma lâmina de vidro, coletamos uma amostra da secreção da ferida para olhar no microscópio. Em gatos, a quantidade de fungos é geralmente tão alta que podemos vê-los diretamente, com sua forma característica. Um estudo publicado na Brazilian Journal of Microbiology demonstrou a alta sensibilidade da citologia em casos felinos.

  2. Cultura Fúngica: Este é o padrão-ouro. Coletamos uma amostra da lesão ou uma pequena biópsia e a enviamos para um laboratório especializado para que o fungo "cresça" em um meio de cultura. Demora algumas semanas, mas confirma a espécie do Sporothrix.

  3. Biópsia com Histopatologia: Um fragmento da lesão é retirado e analisado por um patologista, que pode visualizar o fungo nos tecidos e descrever a inflamação causada por ele.

Dicas Práticas: Vamos Blindar o Seu Gato e Sua Casa!

A prevenção é, e sempre será, o melhor remédio. A boa notícia é que as medidas preventivas são simples e protegem seu gato não apenas da esporotricose, mas de inúmeras outras doenças e perigos.

  • MANTENHA SEU GATO DENTRO DE CASA: Esta é a regra de ouro. Gato indoor não briga por território, não é atropelado e não tem contato com animais doentes. Se você tem um quintal, certifique-se de que ele seja 100% telado.

  • CASTRAÇÃO É UM ATO DE AMOR E SAÚDE: A castração reduz drasticamente o comportamento de cio, a marcação de território e as fugas para acasalar ou brigar. Gatos castrados são mais caseiros e tranquilos. Por isso nós aqui da Pet Fauna sempre indicamos a castração do seu felino.

  • ADOÇÃO RESPONSÁVEL: Ao adotar um novo gatinho, especialmente se ele veio da rua, faça um período de quarentena (afastado dos demais da casa) e leve-o ao veterinário para uma avaliação completa antes de apresentá-lo aos outros animais da casa.

  • SUSPEITOU? AJA RÁPIDO E COM CUIDADO: Se encontrar qualquer ferida que não cicatriza no seu gato, não espere. Agende uma consulta veterinária imediatamente. Enquanto isso, lave bem as mãos quando manipular o seu gato e isole-o de outros pets.


Mitos e Verdades Sobre a Esporotricose

A desinformação é tão perigosa quanto o próprio fungo. Vamos esclarecer alguns pontos:

  • MITO: "É só uma feridinha de briga, vou passar um remédio caseiro e vai sarar."

    Lesões de esporotricose NÃO melhoram sozinhas ou com antissépticos comuns. Elas pioram, se aprofundam e se multiplicam. O uso de pomadas com corticoides (muito comuns em casa) pode, na verdade, agravar drasticamente a infecção fúngica. Nunca medique seu gato por conta própria.


  • MITO: "A eutanásia é a única solução para um gato com esporotricose."

    Isso é um mito cruel e ultrapassado. A esporotricose tem tratamento! O tratamento é longo (pode durar meses), exige dedicação do tutor, mas na grande maioria dos casos leva à cura. A eutanásia só é considerada em casos raríssimos, extremamente graves e refratários, onde o bem-estar do animal está irremediavelmente comprometido.


  • MITO: "Meu gato é o culpado, preciso me livrar dele para proteger minha família."

    O gato é a maior vítima. O abandono é o pior caminho, pois o animal continuará sofrendo e disseminando o fungo. A forma correta de proteger sua família é tratar o gato. Um gato em tratamento adequado, com as lesões cicatrizando, deixa de oferecer risco rapidamente. Tratar o animal é o pilar do conceito de Saúde Única, onde a saúde humana, animal e ambiental estão interligadas.


O Tratamento: Uma Maratona de Cuidado e Compromisso

Se o seu gato for diagnosticado, respire fundo. Você e seu veterinário formarão uma equipe. O principal medicamento utilizado é a base de um antifúngico oral.

Alguns pontos cruciais sobre o tratamento:

  • Duração: O tratamento é longo, geralmente de 3 a 6 meses, e só deve ser interrompido após a cura clínica (desaparecimento das lesões) e a recomendação expressa do veterinário, que pode pedir uma nova cultura para confirmar a cura.

  • NÃO INTERROMPA: Mesmo que as feridas melhorem e seu gato pareça ótimo, o fungo ainda pode estar no organismo. Interromper o tratamento antes da hora é a principal causa de recidivas (volta da doença), muitas vezes de forma mais resistente.

  • Monitoramento: Serão necessários retornos periódicos ao veterinário para avaliar a melhora das lesões e monitorar a saúde do gato, já que a medicação, como qualquer outra, pode ter efeitos colaterais que precisam ser acompanhados com exames de sangue.


Conhecimento que Salva Vidas

A esporotricose felina é, sem dúvida, um dos maiores desafios da medicina veterinária e da saúde pública atualmente. É uma doença séria, que causa sofrimento e pode afetar toda a família. Mas, como vimos, ela tem prevenção, diagnóstico e tratamento.

O medo nasce da desinformação, mas a ação nasce do conhecimento. Proteger seu gato mantendo-o seguro dentro de casa, castrando-o e oferecendo cuidados veterinários regulares não é apenas um gesto de amor por ele, mas um ato de responsabilidade com toda a comunidade.

Lembre-se: aquela pequena ferida pode ser um pedido de socorro silencioso. Não o ignore.

Sua vez de agir!

Você já conhecia a esporotricose? Tem alguma experiência com a doença ou conhece alguém que tenha passado por isso? Sua história pode ajudar outros tutores!


Compartilhe este artigo em suas redes sociais e grupos de WhatsApp. Levar conhecimento adiante é a forma mais eficaz de combater o avanço da doença e o preconceito. ❤️


Ao primeiro sinal de uma lesão de pele que não cicatriza no seu gato, não hesite. Procure imediatamente um Médico Veterinário. Aja por ele, por você e por todos.

 
 
 

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